XXI.

Deixam dos sótãos frios o aposento
Que para beber n'elles lhe foi dado,
Obedecendo logo ao mandamento
De um bebado tão nobre e tão honrado.
Alli se acharam juntos n'um momento
No bairro de Reimonde celebrado,
Os da Porta d'Avis e outros onde
As suas casas grandes tem o Conde.

XXII.

'Stava Francisco alli sublime e dino,
Vermelho como os raios de Vulcano;
Por sceptro tinha um copo crystalino
De cheiroso licor, mas não d'este anno;
Da boca lhe sahia um ar tão fino,
Que em vinho convertêra um tigre hyrcano;
Dos ramos tinha c'rôa rutilante
Em que tornou a Daphne seu amante.

XXIII.

Em lagariças, dornas assentados,
Cubertos de mosquitos que voavam,
Os mais bebados são agasalhados,
Sem ordem nem razão se assentavam.
Precedem os menores aos honrados;
E assi uns pelos outros se trocavam:
Quando Francisco alto assi dizendo,
Com tom de voz começa grave e horrendo:

XXIV.

Moradores de donde antigamente
Teve Sertorio casa e certo assento,
Se do grande beber da forte gente
De Baccho não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos fados grandes certo intento
Que por elles s'esqueçam Castelhanos,
Flamengos, Allemães, Italianos.

XXV.

Já lhe foi, bem o vistes, concedido
A um bebado d'estes mais pequeno
Sogigar Caparica e ter bebido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Camarate lhe tem obedecido,
Póvos se lhe mostrou brando e sereno;
Para que é mais cansar? cousa é notoria
D'Ourem e Figueiró levaram gloria.