XVI.
Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Frio, que usar de vós lhe não é dado;
Pelo contrario o barbaro gentio
Com desejo de ver-vos 'stá squentado;
Peramanca o vermelho senhorio
Vos tem s'enviuvaes apparelhado;
Que pois em dar seus bens sois brando e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.
XVII.
De Castella se veem n'essa morada
Agoas de duas côres deleitosas,
Quando a nossa cidade está esgotada,
Inda que o gesso as faz menos gostosas;
C'o licor novo espera ser tirada
A reima das entranhas sequiosas,
Porque esse é o que aquenta a velha idade
Desterrando a agoa-pé d'esta cidade.
XVIII.
Mas em quanto com novo não me alento,
Reparti com os pobres que o desejam;
Ide largando d'elle, com intento
Que seus poucos reales vossos sejam.
Assi recolhereis o nosso argento,
E de todos aquelles que festejam
Por tal ordem a Baccho celebrado,
Que costumam beber cada bocado.
XIX.
Já de lá d'Alcochete caminhavam,
As fermosas borrachas apertando,
E depois de vasias as largavam,
Outras d'outro licor melhor tomando,
De branca escuma os copos se mostravam
Cubertos ao beber não lhe assoprando;
Mas as agoas nem doces, nem salgadas
D'ellas vistas não foram nem provadas.
XX.
Quando Francisco, bebado espantoso,
Que em copo, frasco, taça é eminente,
Se ajuntou em conselho, desejoso
De dar favor a toda aquella gente.
Pisando esse caminho tão famoso
Da rua das adegas prestemente,
Convocados da parte do entornante
Por um já n'outro tempo bom tocante.