XLVI.
Os seus borrachões eram de maneira
Que pipas pareciam mui compridas,
Agasalha-os com festa a taverneira
Por suas taças ver melhor providas,
O vinho bota em vasos de madeira.
Enchendo do restante as mais medidas.
Senta-se á meza logo em continente,
Para beber tambem com esta gente.
XLVII.
E do que os Castelhanos vem providos
Começam a comer todos sentados,
Que uns d'azeitonas vem apercebidos,
Outros de uns pexinhos bem salgados.
E os que de manjares vem despidos,
Começam a mandar vir alhos assados,
E sobre isto aos outros vão brindando,
Os castelhanos vinhos festejando.
XLVIII.
Estando assi comendo, eis que chegavam
Outros que lhes pediam que esperassem,
Porque para beber desafiavam
Os mais famosos tres que alli se achavam.
Vinho trazem tambem, o qual gavavam,
Pedindo aos assentados que provassem:
Para provar do vinho um fóra salta,
Que no beber aos outros mais se exalta.
XLIX.
Não tem descarregado a agoa-ardente,
Quando o que saltou fóra já bebia;
Começa de gaval-o á sua gente,
Dizendo que parece malvasia.
O tarverneiro então em continente
Tal gente recebeu com alegria.
Enchem vasos de vinho e do que deitam
Os que vem e os que estão nem gota engeitam.
L.
Comendo alegremente perguntavam,
Com lingua onde as palavras se detinham,
D'onde era o licor branco que gostavam
E se vermelho entre elle tambem tinham.
De Castella os marranos lhe tornavam
Que si, e suas mercês de donde vinham?
Disse um d'elles: De junto a Benavente,
Vimos a Evora a beber sómente.