LI.

De Riba-tejo temos já provado
Os vinhos, e as adegas temos visto,
Caparica deixamos esgotado
Molto sudando nel glorioso acquisto.
E de um bebado somos tão amado,
Tão querido de todos e bem quisto,
Que não no largo mar com leda fronte,
Mas de vinho entraremos n'uma fonte.

LII.

E por mandado seu buscando vamos
A terra que Louredo em torno rega,
Depois que os quartos todos esgotamos
Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega.
Mas já razão parece que saibamos,
Se entre vós a verdade se não nega,
Quem sois, que vinho é este que buscaes,
E se tendes do d'Evora alguns signaes.

LIII.

Somos, um dos do vinho lhe tornou,
Estrangeiros na terra e na nação,
Que os proprios são aquelles que criou
A terra que sovado come o pão.
A lei cega tivemos que ensinou
Aquelle descendente de Abrahão,
Que vinho não bebeu quente nem frio;
Intendami chi può, che m'intend'io.

LIV.

Esta pequena venda aonde estamos
É de nossa passagem certa escala,
Onde ás vezes taes vinhos nós gostamos,
Que acontece ficar homem sem falla.
E por ser terra esteril procuramos,
Cada vez que passamos, visital-a.
Comem aqui e bebem tanto a pique,
Que prometto que o Fuentes cedo enrique.

LV.

E pois que tantos odres despejaes
Se d'Evora buscaes o vinho ardente,
Guiando-vos irei, té que sejaes
Postos em Monte-mór seguramente,
Onde será bem feito que vejaes
O tridentino André que é o bebente
Que essa terra governa, e que vos veja,
Para que d'alguns vinhos vos proveja.