LVI.

Dizendo isto o Mourisco carregou
Os seus odres, deixando a companhia,
D'ella e do vendeiro se apartou;
Bebe cada um sua vez por cortezia;
Os novos companheiros acceitou
Com mostras de prazer e d'alegria,
Dizendo a cada um que caminhasse,
E quem beber quizesse que o tomasse.

LVII.

A noite se passou na leda frota
Com estranha alegria não cuidada,
Por acharem em terra tão remota
A venda nova d'elles desejada.
Disse o Mourisco alli: Venga la bota!
Na castelhana lingua d'elle usada.
Elles que no beber tanto se esmeram,
A seu mandado logo obedeceram.

LVIII.

Do vinho alegres côres rutilavam
Pelas taças de vidro crystallino;
As velhas azeitonas que lhes davam
Festejam mais que flôres e boninas,
Da venda os taverneiros s'espantavam
Do cheiro e do sabor das agoas finas,
Porém a demais gente não provava
O bom licor que entre esta se brindava.

LIX.

Mas assi como a Aurora marchetada
As fermosas borrachas lhe mostrou
Áquella gente meia atordoada,
Cada qual d'elles sua vez tomou.
Começa a embebedar-se a camarada,
Que de fermosos frascos se adornou,
Para beber com festa e alegria
C'o bebedor da terra que partia.

LX.

Partia alegremente, desejando
De beber já com gentes tão ufanas,
Que por charnecas sêccas caminhando,
Vem a beber em terras Transtaganas.
A borracha que traz vem empinando
Do licor que se vende não com canas.
Já chega, mas sem gota o Tridentino;
E quem sem gota está é bem mofino.