LXI.
Recebem-no alli alegremente,
O Mourisco com sua companhia,
E dá-lhe d'azeitonas um presente,
Que para tal effeito já trazia.
Dá-lhe sardinha frita; salta o ardente
Licor, com que elle tem tanta alegria.
Tudo o Marques contente bem recebe,
Mas triste está com ver que ninguem bebe.
LXII.
Estava o Granadino mui confuso
Com ver que não tem já de vinho nada,
Com que brinde ao bebente, como é uso,
Que para o receber fez tal jornada.
Reprende o companheiro seu abuso,
Pois sequer não deixára uma canada
Para enxaugoar a boca ao que trazia
Do fresco Monte-mór a alegre via.
LXIII.
Porque em chegando diz que ver deseja
Do vinho os instrumentos; que não crê
Que tão honrada gente alli esteja,
Sem terem pelo menos agoa-pé.
Mas os outros a quem nada sobeja
Do licor da boa planta de Noé,
Aos vendeiros pedem que alli 'stavam,
Das fundagens que para si guardavam.
LXIV.
E disse um d'elles: pois que em tal sazão
Viemos que entre nós nem gota havia,
Quero-vos dar alguma informação
De nós, em quanto o vinho lá se avia.
Posto que granadino é de nação
Este homem que nos serve aqui de guia,
Perto está de Lisboa a patria nossa,
Buscamos Peramanca amada vossa.
LXV.
Deixamos esgotado todo o imperio
Que Baccho em nossas terras tem visivel;
Vimos correndo agora este hemispherio,
Porque beber por lá não é soffrivel:
E posto que sofframos vituperio,
Por um largo beber tudo é soffrivel:
Que melhor é vergonha em quem bebeu,
Que a dôr por não soffrer q'outrem soffreu.