LXVI.
Porque bastava só vinho infinito,
Que não ha nem gota já na companhia,
Que é tal, e no beber tem tal esp'rito,
Que inda um Tejo de vinho esgotaria.
Se as vasilhas quer ver como tem dito,
Cumprido esse desejo te seria:
Vasias as verás, que eu me obrigo
Que sempre assi 'starão, s'imos comtigo.
LXVII.
Isto dizendo mostram diligentes
Os vasos com que apagam as seccuras;
Mostram fermosos frascos e as pendentes
Borrachas que em caminhos são seguras:
Os odres nas medidas differentes,
Cobertos d'encouradas vestiduras:
Outras borrachas trazem por aljavas,
De còrno copos grandes, taças bravas.
LXVIII.
Chega n'isto o vendeiro diligente
Com as suas fundagens saborosas;
Bebe d'ellas André alegremente,
Desafiando as gentes tão famosas.
Mas d'entre elles um bebado valente
Responde-lhe que as gentes valerosas
Não sahiam a um; e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.
LXIX.
Mas d'isto que André Marques bem notou
E de tudo o que ouviu no copo attento,
Um odio certo n'alma lhe ficou
Uma vontade má de pensamento.
Nas obras e no gesto o não mostrou,
Mas com risonho e ledo fingimento
Tratal-os brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.
LXX.
Piloto lhe pedia o capitão
Por quem podesse a Evora ser levado,
Polo qual lhe daria um borrachão
De vinho de Valbom que é extremado.
André lh'o prometteu, mas com tenção
De peito venenoso e tão danado,
Que a morte, se podesse, n'este dia
Em logar de piloto lhe daria.