LXXI.
Tal odio lhe ficou e má vontade
Da resposta que aquelle lhe tornou,
Que agoa lhe ordena dar com falsidade
Em logar do licor que Noé deixou.
Oh que caso cruel! oh que maldade!
Que de uma só palavra que soltou
D'este que elle buscava como amigo
O faz ficar seu perfido inimigo!
LXXII.
Partiu-se n'isto André, sem companhia
Dos bebados que tinha despedido,
Com engano seu e grande cortezia,
O gesto ledo a todos e fingido.
Já sobre seu asninho se subia
Com vinho de que ia apercebido,
E quando se desceu no aposento
Não levava a borracha mais que vento.
LXXIII.
Da rua das adegas o Thebano,
Que da parternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento tão ufano,
Ser do seu bom André aborrecido,
No pensamento cuida um falso engano
Com que seja de todo destruido.
E em quanto isto n'alma imaginava
Um borrachão tomando assi fallava.
LXXIV.
Está do Fado já determinado
Que em tantas bebedices tão famosas
Se tenham d'estes bebados achado,
As suas taças sempre victoriosas;
E eu Baccho tão sublime e tão honrado
Bebado, e mais de partes tão honrosas,
Hei de soffrer que o Fado favoreça
Outrem por quem meu copo se escureça?
LXXV.
Já quizeram os Fados que tivesse
Esta genta victoria n'esta parte,
Cujos campos o Tejo reverdece;
E que com tanto vinho não se farte!
Pois não se ha de soffrer que o Fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Que venham beber vinho transtagano,
Abatendo o gran nome do Thebano.