LXXXI.
E se assi não tivermos d'este feito
Impedido o caminho totalmente,
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil que te contente.
Manda-lhe aqui dar guia que de geito
Seja astuto no engano e tão prudente,
Que os leve adonde sejam submergidos,
Onde a agoa dê fim a seus sentidos.
LXXXII.
Tanto que estas palavras acabou,
O Tridentino André, bebado velho,
Os braços ao pescoço lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho.
Em se apartando d'elle concertou
Para os poder prender todo o apparelho,
Com que em puro desgosto lhe tornassem
D'Evora o vinho puro que buscassem.
LXXXIII.
E busca mais para o cuidado engano
Um homem que d'alli com elle mande,
Sagaz, astuto, sabio em todo o dano,
De quem fiar se possa um quarto grande.
Diz-lhe que acompanhando o Alcochetano
Por ribeiras, por charcos com elle ande,
Que se d'aqui passar, que lá adiante
Vá cahir onde nunca se levante.
LXXXIV.
Já o carro d'Apollo caminhava
Pelo nosso horizonte, quando erguido
O bom Vasco c'os seus determinava
De vir por vinho á terra apercebido.
Os borrachões a gente desatava,
Corre-se cada qual não ter bebido;
E do que á venda veio novamente
Beberam todos logo em continente.
LXXXV.
Assi se vem chegando junto á terra
Para tomar o vinho necessario;
Mas o Marques o vinho todo encerra
Só pelo não beber o seu contrario.
Porém Vasco Bagulho que não erra
Em não se fiar d'este adversario,
Apercebido vem como podia
E entra em Monte-mór com alegria.