LXXXVI.
O grão Marques que o vê logo desmaia,
Diz á Justiça que ande apparelhada
De pistolete, chuça e azagaia,
De rodela, de casco e boa espada;
E que em dando recado logo saia,
Porque tome esta gente atordoada.
E para que melhor isto se faça
Vae-se beber com elles per negaça.
LXXXVII.
Bebendo André co'a gente sequiosa,
Andam os beleguins fóra espreitando,
E co'a chuça e azagaia perigosa
Ao Marques se entraram acenando.
Mas a gula que estava desejosa
De beber, sem recado vão entrando.
Qualquer se lança ao copo tão ligeiro,
Que nenhum dizer póde que é primeiro.
LXXXVIII.
Qual pobre ajuntamento d'estudante
De quatro, cinco ou seis de camarada
Que vê que é pouco o vinho e não bastante,
Que ha para todos só uma canada;
Qualquer d'elles pertende andar diante,
Por lhe não tocar vez esfarrapada:
Tal pressa ha nos de fóra e nos da terra,
Mas todos se vão já chegando á serra.
LXXXIX.
Eis no estomago o fumo se levanta
Da furiosa e quente companhia,
Que de tal modo bebem que se encanta
O vendeiro que o vinho lhes vendia.
A multidão dos fumos era tanta
Do vinho que á cabeça lhes subia,
Que logo o Alcaide foge de medroso,
De que o Marques ficou mui desgostoso.
XC.
Não deixam os que ficam sua empreza,
Mas o muito que bebem mal os trata,
Que se o beber tomavam por defeza,
Esse mesmo beber os desbarata.
Alegres ficam todos sem tristeza,
Já julgam a amizade por barata,
E trocam seus enganos á porfia
Pelo amor que do vinho lhes nascia.