XCI.

Vae-se cada um a casa retirando,
Porque quer vomitar muito apressado;
Quem arrota, e alli vae engulhando,
Na boca mette a mão desatinado.
O vendeiro fugiu, desamparando
A venda, do beber amedrontado;
Gloriam-se os que ficam do seu braço
Que a tantos afugenta em breve espaço.

XCII.

Uns deixam por alli suas espadas,
Dos outros quem a leva não o sente;
Quem se deixa cair ás tres passadas,
Quem bebe o vinho e o deita juntamente.
Arrombam as medidas ás pancadas,
Á parede se arruma o mais valente;
Assim que a gente d'antes inimiga
Com tão alto beber se torna amiga.

XCIII.

Passando isto, fica a camarada
Com gosto de haver feito tal empreza;
Manda logo fazer de vinho agoada,
Porque d'alli não quer outra riqueza.
Ficou a alma do Marques magoada,
No odio antigo mais que nunca acceza;
E vendo sem vingança tanto dano,
Sómente estriba no segundo engano.

XCIV.

Torna-se a elles, tendo-a já cozido,
Levando alguns refrescos que ha na terra,
Com um frasco de vinho mui comprido,
Mas sob capa de paz armado em guerra.
Piloto lhe offerece conhecido,
Dizendo que em taes vias jámais erra,
Com o qual se fizesse o que esperava,
Que a Evora os levaria confiava.

XCV.

O gran Vasco Bagulho, a quem convinha
Fazer já seu caminho desejado,
Que Borrachões não poucos cheos tinha,
Para buscar Louredo tão amado;
Recebendo o piloto que lhe vinha,
Foi d'elle alegremente agasalhado.
Despede-se com gran contentamento,
C'o guia, sem saber o falso intento.