XCVI.

Dest'arte despedida a gente honrada,
Começou a seguir o falso guia.
Não tinham meia legoa bem andada,
Quando do bom caminho se desvia.
O bom Vasco que não cahia em nada
Do grande engano que este tal lhe urdia,
D'elle mui largamente se informava
A que parte Louredo lhe ficava.

XCVII.

Mas o guia instruido nos enganos
Que o malvado do Marques lh'ensinára,
Leva-os por partes onde crueis danos
E morte em fim em agoas lhe prepara.
Diz-lhes que vão contentes, vão ufanos,
Que mui prestes verão a terra cara;
Porque elle caminhava por tal via,
Que cedo a Peramanca os levaria.

XCVIII.

E diz-lhes mais, com falso pensamento,
Que esta via por mais breve tomou,
Posto que um rio tem, mas sem tormento
E sem perigo sempre se passou.
O Bagulho que a tudo estava attento,
Muito com estas novas se alegrou;
E com grandes copadas lhe rogava
Os levasse por donde o porto estava.

XCIX.

O falso guia, porque determina
Dar-lhe porto, mas não qual elle pede,
Posto em Rio Marinho lh'o imagina
N'um pégo que em altura os mais excede.
Aqui o engano e a morte lhe maquina,
Para que tal beber com pressa véde;
E para o porto verem logo os chama
Onde lhe arma perderem vida e fama.

C.

Já para lá inclina a leda frota
E em chegando ao rio da cilada,
Um descalça o sapato, o outro a bota,
Para ir buscar a morte não cuidada.
Chega um bebado n'isto, que remota
Lhe parece esta gente e enganada,
E com duras palavras reprehendia
D'entrarem em tal pégo a ousadia.