CI.

Mas o malvado guia conhecendo
Ser manifesto o engano, n'um instante,
Se vae por uns outeiros acolhendo,
Corrido de não ir a sua ávante.
Os outros que ficavam 'stão tremendo,
Cuidando qu'inda o engano era diante;
Mas o que os tirou d'elle, mui contente
Lhes diz que irá com elles juntamente.

CII.

Ficam todos então com alegria,
Bebem e dão de beber ao que os guiava.
Um olha para o ceo, e diz que via
Mais luas do que d'antes costumava.
Duas luas a mi, Senhor, dizia,
Ao Mouro, ao infiel que vos aggrava.
Outro a um tronco diz; bebei, Senhora,
Senão deitar-vos-hei os olhos fóra.

CIII.

E tendo esta ribeira já passada,
Onde os quiz afogar o falso guia,
A torre appareceu n'uma assomada
Onde matou Giraldo a má vigia.
Á mão direita fica situada
Uma povoação de que bebia
A gente principal da nossa idade,
Peramanca é o nome da cidade.

CIV.

E sendo o capitão aqui chegado
Estranhamente ledo, porque espera
De ser alli mui bem agasalhado
Dos refrescos que ha n'aquella terra:
Eis vem frascos de vinho com recado
De Diogo que sabe a gente que era,
Porque Baccho já d'antes o avisára
Que de bom vinho alli os regalára.

CV.

Agasalha-os a todos como amigos;
Preza-se já cada um de fallar certo,
Dando conta de todos os perigos,
Que em caminho passaram tão desertos.
Não curam de lhe dar uvas nem figos,
Mas o licor que deixa o olho esperto.
Quer imitar cada um o gran Barbança
Que pôz n'este licor sua esperança.