Tirar Ignez ao Mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso;
Crendo co'o sangue só da morte indina,
Matar do firme amor o fogo acceso.
Qual furor consentio, que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do Furor Mauro, fosse alevantada
Contra huma fraca dama delicada!
+CXXIIII.+
Traziam-na os horrificos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade,
Mas o povo com falsas e ferozes
Razões á morte crua o persuade.
Ella com tristes e piedosas vozes,
Sahidas só da mágoa, e saudade
Do seu Principe, e filhos, que deixava,
Que mais que a propria morte a magoava:
+CXXV.+
Para o Ceo crystallino alevantado
Com lagrimas os olhos piedosos;
Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Hum dos duros ministros rigorosos:
E despois nos meninos attentando,
Que taõ queridos tinha, e taõ mimosos,
Cuja orphandade como mãi temia,
Para o avô cruel assi dizia:
+CXXVI.+
Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento;
E nas aves agrestes, que sómente
Nas rapinas aerias tem o intento;
Com pequenas crianças vio a gente,
Terem taõ piedoso sentimento,
Como co'a mãi de Nino já mostráram,
E co'os irmãos que Roma edificáram:
+CXXVII.+
Ó tu, que t[~e]es de humano o gesto, e o peito,
(Se de humano he matar h[~u]a donzella
Fraca, e sem força, só por ter sujeito
O coraçaõ a quem soube vencella)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o naõ t[~e]es á morte escura della:
Mova-te a piedade sua, e minha,
Pois te naõ move a culpa que naõ tinha.