Infelizes de nós, se não restasse
No fundo d'alma, de sofrer cansada,
Divino não sei que, que aos males todos
Nos torna sobranceiros.

Eia, pois ao porvir se appelle, Elmano,
Fonte de gostos, ideaes amenos,
O Fôlego alargando ao soffrimento,
Leda Esperança ondêa.

Ella espinhos crueis em flores torna,
Sustenta o fio, e dá sabor á vida;
Retem suicidas mãos, angustias doura,[2]
Deve ser nosso Numen.

Se dize com Ovidio: "Eu perdi forças,[3]
Perdi côr, e mal cobre a pelle o osso,"
Tambem com elle eu digo: "Immensos males[4]
A velhice me avanção."

A Aurora do Prazer talvez que enflore,
Ermo invernoso da existencia nossa,
Á Fama vividoura, assombros novos
Na Lyra então daremos.

Por Nuno Alvares Pereira Moniz.

[1] Affectus que animi, qui fuit ante manet.
Ovid. Trist. lib. 5. Eleg. 2.
[2] Me quoque conantem gladio finire dolorem,
Arguit, injectas continuit que manus.

Ovid. de Pont. lib. I. Eleg. 6.
[3] Nam neque sunt vires, nec qui color ante solebat,
Vixque habeo tenuem, quae tegat ossa, cutem.

Ovid. Tris. lib. 4. Eleg. 6.
[4] _Me quaque debilisat series immensa laborum,
Ante meum tempus, cogor et esse senex.
Ovid. de Pont.

* * * * *

Carminibus quaero miserarum oblivia rerum. Ovid.

*ODE*