Por occasião da noticia, que grassou no Porto, das melhoras do Senhor Bocage.
Cisne de immenso vôo! ave, que rója,
A medo se abalança aos teus louvores.
D'entre a que, eterna, lá no abysmo estala
Immensa chamma, que accendeo o Immenso,
Tôrva ullulando, á região do dia
Surge a myrrhada Invéja.
Seu hálito empestado a luz suffóca,
E sécca, e mirra as arvores, as flores;
Dragão, de linguas tres, na dextra arrôcha,
Alça na outra o facho.
Silvão-lhe horrendas na tostada fronte
Viboras crespas, de que está coalhada;
Nutre nos peitos ávida serpente,
De insaciavel fome.
Atro veneno a lingua lhe destilla,
A lingua, que de vibora parece:
Vós Górgonas, vós Furias, tu Medusa,
Não sois mais horrorosas.
De espaço meneando as azas longas,
Demanda vagarosa a Estygia margem;
E alli, prendendo o vôo, descendo á terra,
Que, ao sentilla, estremece.
Alli em subterranea, em ampla furna,
Desde a infancia dos seculos formada,
Dura, immutavel lei impondo a tudo,
Reside a Morte horrenda.
Montão enorme de esbulhados ossos,
De crâneos seccos lhe compõem o throno,
Assôma no alto o descarnado Monstro,
A ferrea fouce em punho.
Voão-lhe em roda Lémures, Espectros,
Jazem-lhe aos pés as lividas Doenças:
O silencio, o pavor, a escuridade
Alli, perennes, mórão.