De João Galvão Mexia de Sousa Mascarenhas.

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Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.

*EPISTOLA.*

Vate, que adoro, portentoso Elmano,
Imagem do Saber, do Pindo gloria,
Apollineo Cantor, Cantor divino
Dos Jardins, onde impéra a Natureza;
Escuta os versos meus, escuta os versos,
Que dicta o coração, dicta a amizade.
Depois, com que pezar o pronuncio!
Que entrei na estancia triste, onde succumbe,
Aos impulsos da Dor, Razão, Constancia,[1]
Diluvio amargo de saudoso pranto,
Me innunda as faces, me consterna o rosto.
Já mais hum só instante, ó caro Elmano,
Se minóra a tristeza, que me opprime;
Meu activo pezar, minha amargura,
Bem não podem narrar toscas palavras:
Excede a dor humano soffrimento!
Saudades que a minha alma afflicta sente,
Podem-se imaginar; mas não dizer-se.
Ah quando penso em ti, eu me arrebato:
Futuras producções imaginando,
Não césso de chorar a falta, a perda,
Que as Bellas Letras, Seculos vindouros
Chorarão, como eu, se a morte horrivel
Inda em flor decepar teus caros dias.
Deste asilo da lúgubre Tristeza,
Onde os dias, ás noites semelhantes,
Eu passo envolto em luto, envolto em pranto,[2]
Te envio tristes ais, ternas lembranças,
Que meu peito fiel a ti consagra;
Escuta-as, se he possivel, (pois o triste,
Com as queixas do triste se consola,)
No meigo coração grato as acolhe;
E conhecendo a dor, que assim me fere,
Pondéra as mágoas, que supporta, e sente
Falmeno, que sem ti vive morrendo.
Sugeito ao mando teu por lei, por gosto,
Te envio (como amargo talvez util)
O Folheto de meus insulsos versos:
Quem quer escravo ser de teus preceitos,
Sem já mais hesitar, deve cumprillos
Embora o Zoilo vil louco me chame,
E pura sugeição julgue vaidade.[3]
Adeos, meu caro Elmano, adeos amigo,
Os teus ais, aos meus ais unidos sejão;
Unidos vão soar na azul esfera,
Augurando amizade além da morte.

[1] Alludindo á exasperação em que o vi lutando, na occasião em que excessivas dores muito o atenuavão. [2] A grave molestia do Amigo, e o proximo falecimento da minha Mãi, me inspirou os tres versos acima, em tudo conformes aos meus sentimentos.

[3] Já mais me atrevera a enviar o Folheto dos meus insipidos versos a tão abalizado Mestre, se a sua determinação me não obrigasse a tanto: as desculpas que exijo, e as causas que allego no Prologo do dito Folheto, não bastão a evitar a critica, que na verdade merece a publicidade de semelhantes Poesias, ás quaes ao presente não dou valor algum.

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*SONETO.*

Nesta horrivel morada da saudade,
Onde chóro, e lamento o teu Destino,
Dirijo preces mil ao Ser Divino,
Que dicta o coração, dicta a amizade.