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Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.

Tu ne cede malis; sed contra audentior ito,
Quam tua te Fortuna sinet……

Æneid. 6. vers. 95.

He nos revézes que apparece o Sabio,
Que d'hum peito atravéz, que a Dor crucîa,
Reluz hum coração, virtudes todo:
Nunca d'Athenas o lustroso esmalte,
O Mestre da Moral, o Deos dos Sabios,
D'alma heroica mostrou mais nobres rasgos,
Que ao entrar na prizão com rosto alegre,
E ao beber a cicuta airoso, e forte.
De Roma nos Annaes, que o Mundo assombrão,
Não teve cabimento Heróe mais claro,
Que hum Séneca, fiel ás leis sagradas
Da Virtude, e Dever , aos pés calcando
Cruas perseguições, desterro iniquo,
Sobranceiro ao rigor dos Ceos, da Terra.
Nem sómente entre as horridas refregas
Do procelloso mar, ou nos combates
D'alma forte resumbra ardor valente:
Da virtude he tambem theatro o leito;
Neste mais de huma vez provou-se o Sabio:
Encara com desdem o Sabio a morte,
Certo que a preço tal se merca a vida.
Temos mui nobre, e remontada Essencia,
Viemos povoar Terraqueo Globo
De mui alto lugar; e a prova, Elmano,
Em nós mesmos se dá, julgando escassa
Humilde habitação, d'arte os portentos,
De Arquitectura, e luxo assombros claros,
Que hum leve sopro esbrôa, esmaga, e prostra;
Não temendo largar tão baixa esfera.
He das dores crueis o termo a morte!
Entre desgraças mil sempre vagando,
De molestias sem fim alvos constantes;
Bem como acontecer deve aos que aberrão
Do seu clima natal, e estranho habitão.
Só depois de existir puras substancias,
Despidas do grosseiro, e terreo manto,
Gostaremos prazer sadio, estreme.
Filosofia, és tu, quem dás ao Homem
Do sepulcro despir-lhe o medo, o tédio;
Por ti (qual déstro nauta exp'rimentado,
Que rasgado o velame, os mastros rotos,
Co'as ruinas da náo prosegue a rota),
Não succumbe o Mortal da morte á face,
Não lhe desbóta do semblante as côres,
Da constancia o vigor não lhe entorpece
Buido ferro, que centelhas vibra;
Da vida o termo com sorriso encara,
Como se alheio fosse, e não seu termo.
Genios transcendentaes, que o mundo honrárão,
Não temêrão largar barrenta capa,
Que mesquinha entorpece os vôos d'alma:
Do divino Platão, o Sol da Grecia,
Ouve attento o clamor, no peito o encerra:
"O espirito do Sabio anhéla a morte,
Nella medita, e a quer: sempre que tende
Fóra de si; taes são seus appetites."[1]
Quanto ao summo chegou do fim jaz pérto:
Fructo, que sazonou co'a Primavera,
Do Outono na estação não orna as mezas!
Quanto mais clara resplandece a chamma,
Tanto mais prompta affraca, e se amortece:
Taes os Engenhos; quanto mais sublimes,
Tanto mais breves são; que he perto o Occaso,
D'onde falta o lugar ao crescimento.
E pois, Elmano, te guindas-te ao cume
Do Horizonte, onde és Sol de Lysia aos Vates,
Cujas centelhas dão calor aos Genios,
Dão brio, dão vigor para ir á gloria,
Postergando montões de vis insectos
De ephemerico ser, d'aspecto ingrato;
Não deves estranhar, que Atropos dura
Se antecipe a cortar-te o fio á vida;
Ella, que sem respeito ao Môço, ao Velho,
Se apraz de encher de lucto, e pranto o Mundo.
Ah! Se a vozes de dor se move a Parca,
Se do Destino as leis transtornos soffrem,
Verás, Elmano, decorrer teus dias
A par dos de Nestor, Tu, que o semelhas
No mel, que vertem teos divinos labios.
Lysia, desfeita em ais, banhada em pranto,
Ante as aras de hum Deos mil preces sólta
Pela conservação do seu esmalte,
Do seu Genio melhor, da Gloria sua,
E aos de Lysia Filinto une os seus votos.

Fr. Francisco Freire.

[1] Sapientes animum tetum in mortem prominere, hoc velle, hoc
meditari, hoc semper cupidine ferri in exteriora tendentem.

Senec. Consol. ad Marciam.

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Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage.

*EPISTOLA.*

Ruindo lá do Bárathro medonho
Lúgubre som, motivador do pranto,
Que as faces mólha de enlutada Lysia,
De ti, ó Vate, reclamava o feudo;
Já lá do Abismo horrendo as furias torpes,
Por ordem de Plutão na terra surgem;
Da vil materia, do que he pó, que he nada,
Opaco manto de endeosados genios,
Rabidas rompem o ordenado todo.
"Murchas esp'ranças mais a mais fraquejem,
Sentimento mortal, tristeza baça
Nos Lusos corações a dor espalhe;
Apenas cinza, o que já foi Elmano."
Esta do Averno a voz, a lei da Morte,
Que ás funeraes Irmans o Monstro intima!
Do Sena pelas margens saborosas,
Pelas praias do Ganges, do Aureo Téjo,
Assustadas de horror as Ninfas clamão;
A lei maldizem, que lhes rouba a gloria,
Carpindo o mimo, que as honrava tanto.
Os alumnos de Apollo ao nume envião
Entre cortados ais, sentidas vozes,
Votos provindos do profundo d'alma,
Quaes os da Gratidão, e os da Verdade:
Co'as mentes cheias de saudade infinda,
Teu nome, ó caro Elmano, a Jove lembrão;
No fogo ardente de sonóros Hymnos,
Escudados da candida amizade,
Da justiça, é dever, da gloria Tua,
Hum Nume Creador, que uniu os Entes,
Hum Deos, hum justo Deos piedoso dobrão.
Eis de repente na brilhante Esfera
Risonho assoma o dia, a noite fóge;
Raia alegre o prazer, somem-se as trévas;
Abrem-se as portas do sulfureo Averno,
E á feia escuridão as Furias tornão.
Esforça-se a razão, estudo, e arte
Das garras a salvar a prêza excelsa:
Angelico tropel ao leito adeja;
Da Sacra Região baixando os vôos
Do Vate aos lares, a melhora guia.
No Olympo os Numes a harmonia prézão,
Affeitos a escutar da terra os Vates.
Oh como de prazer exulta o peito!
E mano, Elmano vive, oh Ceos, oh dita!
Por elle a gloria, e honra em Lysia abundão;
Cisne do Téjo, que trespassa a méta,
Licita a raros de adejar cançados.
Fadem teus dias fortunosos lances.
Praza aos Ceos compassivos, que inda eu possa
Ver-te immune ao mal, que te consterna;
Porque possas tambem dar vida á Fama
De deslizado Heróe, que a cobardia
Pendura nos portaes do Esquecimento;
E as azas desprender em canto altivo,
(Dos Voltaires, Camões, dos Tassos digno)
Em lustres de Varão, que immortalizes.
Virente louro não me cinge a frente;
Tolhem meus gressos as varedas ínvias
Ao bipartido Cume, ao sacro asilo
Dos almos Genios, onde entrar não posso:
A ser-me dado, intrepido verias
Em duravel engaste, em Padrão d'oiro
Ir assomar teu nome além dos Evos;
A ardentes Vates, que o Porvir esconde,
Engenhos como Tu, mover-lhes pasmo;
Mostrar-te como exemplo ás Plagas Lusas,
Disparando o trovão, vibrando os raios,
Imagens vivas, que dão alma ás pedras;
Em quanto as graças em Gertruria bella
Co'os doces folgazões amores brincão;
Quando surge da Estancia a torva invéja,
Ou trilhas sem desdouro o Lacio augusto:
Do filho de Sulmona unindo a cinza,
Fazendo-o reviver com pompa egregia
Em veste alheia; mas tão nobre, e rica,
Que equivale ao valor dos proprios trajes.
Quizera agora ter o dom de Elpino,
Invadir com teu nome a Eternidade……
Mas ah que delirei: oh mente louca!
Não precisas de quem de ti precisa:
Rite, rite de mim, ó grande Elmano
Mas dos desejos não, dos sãos desejos.