Se póde hum mocho, piador nas selvas
Brancas plumas cobrar, surgir de noite,
E dos pios colher vozes sonóras,
Tendo assumpto sem par, Heróes cantando!
Não sou ave infeliz, odeio as trévas;
Minha essencia mudei; encaro o dia,
O dia, que nasceo na luz d'Elmano.
Ó tu Dominador, de quem domina
No medonho poder d'escuro pégo,
Onde morre o Vulgar, existe o Grande;
Em que ufana de Ti a Eternidade,
Dos limites sahio, mandou soberba
Aos Futuros pasmar, tremer aos Fados;
E nos Livros ao tempo sobranceiros
O teu nome esculpir, dar vida ás letras;
Que sedentas té'li de iguaes talentos,
Sem a mira lançar a mais, ou tanto,
Novo campo não dão a novo entalhe.
Accolhe os versos meus, os meus louvores,
Que o pêjo suffocou; mas cede o pêjo
Á voz da Gratidão, que em mim resôa.
Que inaudito prazer me surge n'alma!..
Elmano, Elmano meu, do Mundo gloria,
Quando penso que os sons adormecidos
Da Lyra (que em temor céde á vontade)
Vão dos Astros romper luzente Espaço,
Indo aos Numes levarão, que he dos Numes
Esta empreza, que os Ceos no seio acolhem,
De que hes justo crédor, que humilde off'reço,
Hade a Jove aprazer, durar em Jove.
Se ao jugo dos Mortaes, se ao Fado, á Morte
Inda liga tua alma a terrea massa,
Se em tormentos, se em ais, se em dor, se em pranto
A substancia languece, que te anima,
E de humano a pensão (dever custoso)
No continuo pular do sangue ardente[1]
Encaras com temor; temor não tenhas!
A morte para o Sabio he gosto, he vida.
Assim o grão Camões, de Lysia esmalte,
E das grandes Nações portento, espanto,
Na desgraça morreo, viveo na morte!
E o Nume atroador de Pólo a Pólo,
Por cem aureos canaes fendendo os ares,
Inda o nome do Heróe espalha ufano,
Inda alentos lhe dá, vida mais nobre.
Quebradas as prizões aos ser terreno,
Que te véda subir de Vate a Nume,
Hade os tubos encher com sôpro estranho,
E teus versos mandar ao Ceo da Gloria.
Não julgues, que se, Heróe, zombas da morte,
Encarando teu mal desdenho o pranto
Hade Lysia chorar, darão os Lusos
Do pranto, que a razão sanar não sabe,
Grossas agoas ao Téjo caudaloso,
Que dos limites seus fugindo irado,
Vá ao Ganges levar, levar ao Nilo
A noticia cruel, que humanos punge:
E Josino (que a vida assás molesta
Nos hombros lhe suppeza alonga os dias
Que, d'Elmano vivendo assim distante,
Hãode o manto roubar á noite escura!)
A tristeza dará da morte o premio.
Revive, Elmano, pois no Ethereo Reino;
Que eu, em quanto tiver vitaes alentos,
Heide em ti prantear d'Amigo a falta,
E de Vate, e de Heróe ceder ao pasmo.
José Joaquim Gerardo de Sampaio.
[1] Alludo ao aneurisma, huma das principaes molestias, que o atormentão.
* * * * *
Ao Senhor Manoel Maria de Barbosa du Bocage, achando-se o A. molesto.
*EPISTOLA.*
O Sabio não vai todo á sepultura,
Na memoria dos homens brilha, e dura.
Rim. du Bocag. T. a.
Hum triste, hum infeliz, da Sorte avêssa
Tragando o fel dos ais, o fel da vida,
Saúda hum triste, que abraçar não póde,
Penhóra em letras, mensageiras d'alma,
Os effluvios da candida amizade,
Os saudosos gemidos, que te envia,
Elmano, que em soluços te evapóras,
Que atroppelado pela dor intensa,
Sóltas dos lumes teus acerbo pranto,
Que em vão te banha as faces enlutadas,
Que tenta em vão desenrugar teus Fados.
Mas ah! cobra valor; constancia, Amigo:
Esforçada razão represe as mágoas,
Que a horrenda fantasia, nebulosa
Avulta em quadros, em que tudo he negro.
Se ella dá brilho, se a existencia affaga,
Debuchando na idéa deleitosa
Glorias, prazeres, jubilos, encantos;
Tambem nos males nos accurva a mente
Com duplicados, horridos pavores.
Baldar o sentimento ao corpo afflicto
Não quero, Elmano, que tambem sou homem.
Se Zêno, se Platão sorrindo em ancias,
Não mostrárão na face a côr do medo,
Que erão diremos corações de bronze?
Sentirão, que a desgraça a todos punge;
Porém soffrêrão com tenaz constancia,
Engolfados na sãa Filosofia.
Se qual vivêrão, tal morrêrão lêdos;
Porque não seguiremos os seus passos?
Forão d'outra materia, que não somos?
Forão d'outro talento, que não tenhas?
Quem da convulsa natureza, opressa
Falsêa em parte os horridos embates,
He sobranceiro á morte em gloria firme:
Se tu com ella nos degráos luzentes,
Librado sobre os extasis divinos,
Nectar libaste na Apollinea Mêza;
Porque tremes das soffregas voragens,
Em que se abysma a Natureza toda?
Que saudades do Mundo te acompanhão?
Por quantos males se não comprão ditas,
Que bem qual o relampago se esváem!
Que te valeo na Patria modulando,
Da bocca deslizar thesoiros d'alma;
Ora cantando de Marilia a face,
Aonde se remóça a florea Gnido;
Ora abrazado em ralador ciume,
Praguejando o rival de teus amores;
Detestando a cruel, a fementida;
Ora carpindo a[1] flor cortada em breve,
Que acordava o botão medrando em risos;
Enriquecendo em fim a Patria, o Mundo
Nos vivos quadros da Moral prestante?
Se horrorosos baldões o premio forão;
Se isto se diz viver… se o Mundo he isto…
Não tens que suspirar; esquece a Terra!
Não succumbas ao pêzo da desgraça:
Se te borbulha hum Deos na mente acceza,
Quem 'sta cheio d'hum Deos não teme a Morte.
De Pedro José Constancio.
[1] Alludo ao Idyllio da Saudade Materna, feito pelo Senhor Bocage.