Eu, que elevo os Mortaes, e os esclarêço,
Que méço a Lua, o Sol, que o Mundo abranjo,
Que da vetusta Idade aclaro as sombras,
Que entro por seus arcanos, e revóco
D'entre o pó, d'entre a cinza, d'entre o Nada
Ao Seculo vivente as Eras mortas;
Que dócil fiz o indómito Oceano,
Abysmo de pavor, de bôjo immenso,
Que só por alta Lei não sorve a Terra;
Eu, do grão Jove, Confidente e Imagem,
Que do Fado os Mysterios desarreigo,
E co'a Moral dos Ceos cultivo o Globo;
Eu, a Sciencia, eu Fonte, eu Mãi das Artes,
Que sei desirmanar na Intelligencia
Entes, na fórma iguaes, na especie os mesmos,
Tornando-os entre si tão desconformes,
Qual dista do Selvagem bruto, e fero,
Macio Cidadão, que as Léis polirão,
Ah! não posso impetrar, colher dos Numes
Para os Alumnos meus pavêz sagrado
A teus golpes, Fortuna, inteiro, illeso!
Sem que benigna mão lhe adoce os Fados,
Sem que escaça piedade o chame á vida,
De vigilias mirrado o Sabio morre.
Almas corrompe do Egoismo a peste;
Camões, Homeros na penuria cantão:
Ei-los co'a gloria temperando a sorte;
Sôão prodigios de hum, prodigios de outro;
Férrea Caterva os ouve: admira, e foge.
Só quando o Vate he cinza, o Muito he nada,
Por elles se interéssa o Mundo ingrato;
Na gloria estéril de Epitafio triste
Solidos bens o Barbaro compensa:
Contradictoria Humanidade insana!
No insensivel sepulcro os Sabios honra,
E os Sabios não remio na desventura!
Quaes elles forão diz, não diz, qual fôra:
Nas almas frias o remórso he mudo.
Ai dos Alumnos meus! Soccorre-os, Fado,
Risca do Livro eterno o duro artigo,
Que ao Mérito, ao Saber seus premios veda;
Aquece os Corações no ardor da Gloria,
Fraterniza os Mortaes; onde suspirão,
Os poucos Filhos meus co'a Mãi prosperem,
E onde com seus innumeros sequazes
Colhe triunfos, a Ignorancia gema.

Indigencia.

Mãi veneravel, teu queixume ouvindo.
Amarga-me da vida o fel em dobro.
A filha tua, a misera Indigencia,
Que muda te escutou piedosas mágoas,
Comtigo vem gemer, carpir comtigo
A moral corrupção, que empesta o Globo.
Plagas e Plagas, entre as Socias minhas,
Entre as mansas Virtudes, hei vagado.
Pela voz da Pureza (a que he de todas
A mais formosa) deprequei o auxilio
De inchado Cortezão, que hum Deos se cria.
Melindre, Candidez, virginea Graça
(Qual flor, em que era orvalho o doce pranto)
Aos olhos do Soberbo expôz seus males.
De gesto accezo, ovante, elle a contempla,
Nem hum momento á dor constrange o vicio:
Em vil proposição, que as Furias dictão,
Profana da Innocencia o casto ouvido,
E em cambio da virtude exige o crime.

Sciencia.

Ceos! Que infamia! Que horror! Prosegue, ó Filha,
Sucumbio a Innocencia á vil proposta?

Indigencia.

Não, que nos olhos meus velavão Deoses,
Fautores da Virtude: escuta e folga.
O celeste rubor, que tinge a Aurora,
Sóbe á face gentil, e as rosas brilhão,
Mas súbito tremor branquê-as logo;
Ei-la, d'olhos no Ceo, recúa e geme:
Eu, porém, que no effeito observo a causa,
Ao seductor pestifero arrebato
O objecto divinal, que o torna hum Monstro.

Sciencia.

Olha o Ceo na Innocencia a imagem sua.

Indigencia.