Murchas no horror do abominavel caso,
Inda comtudo as esperanças minhas
Levei de lar em lar; devendo a poucos
Piedade accidental, bati cem vezes
Ás surdas portas de sumido Avaro,
(Sumido em subterraneo abysmo de oiro)
Fallára o Monstro, se fallasse a Morte,
O silencio dos túmulos o abrange
Ante o metal (seu Deos), que em férreos Cofres
C'o a vista famalenta o Vil devora
Servos delle (o poder he tal do exemplo!)
Depois de longo espaço, e vans instancias,
C'hum desabrido - Não - me affugentárão.
Sciencia.
De tudo ha Monstros mil na Especie humana,
Mas todos vence da Avareza o Monstro.
Indigencia.
Attende ao mais, e adoçarás teu pranto.
Do centro da Impiedade em fim retíro
Os fatigados pés, e os guio aos Campos,
Absorta nas imagens carinhosas,
Com que affagais a idéa, oh aureos Tempos.
Sciencia.
Se alli não ha Virtude, onde he que existe!
Indigencia.
Pobre choupana, que forravão colmos,
Humildes lares, que zelava hum Nume,
Attrahem meus olhos, e meu passo animão.
Chego, e curvo Ancião, que alli repousa,
Grande em seu nada, na indigencia rico,
Sorrindo-se, me acolhe, amima, e nutre.
Santa Hospitalidade! Eras a Deosa,
Que o rugoso Varão, madura Esposa,
E imberbe Prole sua, abençoava!
Com milagrosas mãos os parcos fructos
Nas arvores fadadas avultando,
Para os errantes, pálidos Mesquinhos,
Que eterna Providencia lá dirige,
Leda colhias saboroso alento,
E qual outr'hora a hum Deos, incluso no Homem,
Muito do pouco a teu querer surgia.
Hospitalidade.