II
Venus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva tambem que todas ellas;
Tu, que vinhas de Troya ás soledades
Dar a Anchises as mammas, e as canellas:
Que grammaste do pae das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez da crica a sêde,
Foste pilhada na vulcanea rêde:
III
Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jacques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lyra,
Para livrar-me do mortal quebranto:
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa
Sobre qual é mais bella, ou qual mais puta.
IV
No Cambayco Damão, que escangalhado
Lamenta a decadencia portugueza,
Este novo Ganós foi procreado,
Peste d'Asia em luxuria, e gentileza:
Que ermitão de cilicios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra teza?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?
V
Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tezões accendem;
As mammas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véos os véos offendem;
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ella ardendo,
Ás pissas pelas mãos lhe vão mettendo.