Morreu Bocage, sepultou-se em Gôa!
Chorai, moças venaes, chorai, pedantes,
O insulso estragador dos consoantes,
Que tantos tempos aturdiu Lisboa!
Por aventuras mil obteve a c'rôa
Que a fronte cinge dos heróes andantes;
Inda veiu de climas tão distantes
Á toa vegetar, versar á toa;
Este que vês, com olhos macerados,
Não é Bocage, não, rei dos bregeiros,
São apenas seus ossos descarnados:
Fugiu do cemiterio aos companheiros;
Anda agora purgando seus peccados
Glosando aos cagaçaes pelos outeiros.
(B.M. Curvo Semedo.)
[Soneto.]
Esqueleto animal, cara de fome,
De Timão, e chapéo á hollandeza,
Olhos espantadissos, bôca accesa,
D'onde o fumo, que sái, a todos some:
Milagre do Parnaso em fama e nome,
Em corpo gallicado alma franceza,
Com voz medonha, lingua portugueza,
Que aos bocados a honra e brio come:
Toda a moça, que d'elle se confia,
É virgem no serralho do seu peito;
Janella, que se fecha, putaria!