[Pag. 139] — Soneto XXIX.

Tanto este, como o que adiante segue sob n.° XXXII, andam em algumas collecções attribuidos ao Abbade de Jazente.

[Pag. 144] — Soneto XXXIV.

Para perfeita intelligencia d'este soneto, que de outra sorte ficaria talvez impenetravel á percepção dos leitores, ajuntaremos aqui resumidamente a historia que forneceu o assumpto de tal composição, a qual não deixa de ser curiosa, e vae fielmente extrahida dos apontamentos, que a esse respeito nos foram communicados.

HISTORIA MARAVILHOSA DA INTITULADA BEATA D'EVORA.

Junto á porta de Alconchel, na cidade d'Evora, vivia em companhia de seus paes uma beata, moça de vinte e dous annos, e de muito bons bigodes, chamada Anna de Jesus Maria. Esta serva do senhor fora por algum tempo confessada de fr. João de Santa Euphrasia, da ordem dos Carmelitas descalsos, e morador no convento dos Remedios da mesma cidade; porém morrendo este, tomou-a debaixo da sua direcção espiritual um fr. Felix, que passados tempos teve de ausentar-se da cidade, e antes da sua partida traspassou a beata a outro masmarro da sua ordem. Este ultimo, satisfeito em extremo de tão bella acquisição, dava a Deus continuos louvores por tel-o ali enviado, a fim (segundo elle dizia) de dirigir e encaminhar para a bemaventurança aquella alma predestinada, cujas singulares virtudes apregoava por toda a parte á bocca cheia. Depois de terem ambos abusado por algum tempo da credulidade e fanatismo, não só do vulgo ignorante, mas até de individuos de mais elevada esphera, que por suas circunstancias deveriam julgar-se fora do alcance de tão ridiculas suggestões, entenderam o frade e a confessada que podiam levar a audacia mais longe, e concertaram entre si uma farça, de que esperavam colher um resultado maravilhoso. Começaram pois a assoalhar entre os seus conhecimentos que por divina revelação fora annunciado á beata que no dia de S. Miguel, 29 de Septembro de 1792, pelas nove horas e meia da noute havia de infallivelmente morrer; querendo Deus chamal-a a si no proprio instante em que completava os seus vinte e dous annos. A noticia d'esta especie de prophecia espalhou-se velozmente por toda a cidade; isso era o mesmo que os interessados desejavam; e grande numero de pessoas, preoccupadas pela opinião de virtude da sanctinha, aguardavam anciosamente o cumprimento da promessa divina. Chegado que foi o dia, em que devia realisar-se o vatecinio, o Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, que era, ou fingia ser um dos que mais acreditavam nos embustes da beata, e do seu director, quiz authenticar o milagre, em modo que não ficasse logar para as duvidas dos incredulos. Mandou por tanto sahir da casa da sancta o padre confessor, e o prior do convento, seu fiel companheiro; e ordenou a quatro clerigos da sé que alternadamente assistissem dous e dous á beata, dia e noute, até chegar a hora prophetisada, para serem testemunhas do seu miraculoso transito.

Cumpriram os clerigos a determinação do prelado; e tudo correu na melhor ordem. Porém vendo que o praso promettido era passado, e que a sanctinha se conservava de perfeita saude, sem que apresentasse o mais leve indicio de uma morte proxima, entenderam que deviam retirar-se; despediram-se d'ella, e abalaram para suas casas. Ainda bem não tinham cruzado a porta, e já o pae da menina corria apoz elles, a annunciar-lhes que n'aquelle mesmo instante dera a alma ao creador! — Voltaram attonitos os bons clerigos, pezarosos sem duvida de não terem presenciado o prodigio; acharam-na com effeito já amortalhada no habito de Sancta Theresa; e para ser mais cabal o milagre, tinha as mãos e pés estigmatisados, com chagas similhantes ás do nosso divino redemptor! — Quem ousaria ainda duvidar da verdade, depois de tão claramente manifestada? Os clerigos promptamente se persuadiram, e correram logo a levar ao Arcebispo a noticia do successo.

Entretanto appareceu o padre confessor, declarando aos circumstantes, que já começavam a affluir, ter sido elle o que mesmo do convento impozera preceito á sancta para que morresse, logo que os clerigos sahissem; por quanto sem permissão d'elle o não podia fazer. Apresentou-se em seguida a communidade de cruz alçada, e começou a altercar com o parocho de S. Antonio ácerca de quem levaria aquelle bemdicto corpo para a sua egreja. O povo amotinado corria em chusma para a casa da beata; todos pretendiam ver com os proprios olhos tão estupenda maravilha… Eis que o frade começa a prégar com grande ancia, preconisando a defuncta pela maior de todas as sanctas nascidas em Portugal; narrou um milhão de suas virtudes, e milagres; affirmou a todos que Deus estava n'ella; disse-lhes que a adorassem; e finalmente, para mais enthusiasmar os pios ouvintes, volta-se para a bisbilhoteira, que jazia amortalhada, e diz-lhe: «Anna! Em virtude da sancta obediencia abre os olhos!» (E ella os abriu, tamanhos como duas cebollas). «Anna! Cruza os braços!» (E a defuncta, que os tinha estendidos, os cruzou effectivamente). «Anna! Abençôa os que aqui estamos!» (E ella assim o fez). — Mandou-lhe que declarasse onde estava: ella respondeu que já tinha ido ao céo, e que lá encontrara fr. João de Sancta Euphrasia, que estava dizendo missa, o qual lhe dera a chuchar metade do calix! — Finalmente satisfazia com presteza a tudo quanto o frade lhe ordenava. Os espectadores enternecidos á vista de tantos prodigios, e lavados em lagrimas, começaram humildes a beijar-lhe os pés, tocando lenços, contas, e veronicas nas suas chagas. Repicaram-se os sinos por todos os campanarios da cidade; começaram de affluir em tropel os coxos, cegos, e paralyticos, que vinham com muitas lagrimas implorar o remedio para seus males: mas infelizmente para elles, sahiam como entravam.

Crescia de ponto a devota multidão, e com ella a desordem, até que as auctoridades tractaram de providenciar, mandando vir tropa, que poz fora a todos, com promessa de voltarem, ficando a final sós na casa o pae, e a mãe com a supposta defuncta. O official que commandava a tropa, tendo-se retirado para baixo, chegou porém passado algum tempo casualmenle á porta: e como ouvisse rumor de vozes no quarto onde jazia a sancta amortalhada com tochas accezas, empurra a porta de repente, e acha-a sentada muito á vontade, conversando sem cerimonia com o pae e a mãe! — Ella mal que o viu, estendeu-se novamente, e deixou-se morrer outra vez, querendo sustentar a impostura; e os paes com toda a presença d'espirito contaram ao official que sua filha lhes estava declarando o logar em que no convento dos Remedios queria ser sepultada. Aquelle, que já desconfiava de tanta maranha, deu logo parte do facto ao Arcebispo. Vieram medicos, e acharam-na mais viva que o azougue!

Descoberta a impostura, o povo amotinou-se novamente; mas d'esta vez com o intento de dar cabo da beata, a quem não podiam perdoar a illusão em que haviam cahido. A final foi mandada presa para o recolhimento de Sancta Martha. O reverendo padre confessor fugiu, e todos os seus confrades foram suspensos das ordens, e degradados para um convento do Algarve. Tudo porém ficou impune; porque passado algum tempo a beata sahiu do recolhimento, e casou com um soldado, e os frades regressaram para o seu convento, não se falando mais em tal.