Consola-te, Pastor; essa perjura
Não deve motivar tua amargura;
Castiga-lhe a traição, e o fingimento
Lançando-a n'um profundo esquecimento.
Que mais satisfação, que mais vingança
Queres da vil, da subita mudança,
Que ver expósta a pérfida Pastora
Ao ludibrio geral? Huma traidora,
Huma féra, huma ingrata, inda que bella,
Não merece a paixão, que tens por ella.
Pondera, que não foste injuriado
De seu duro desprezo inesperado,
Que o feminil capricho extravagante
Não te deslustra o mérito brilhante.
Nenhum, nenhum Pastor n'Aldêa ignora,
Que essa, que te deixou, foi atégora
Carinhosa comtigo, e fez patente
Sua correspondencia a toda a Gente:
Demonstrações em público te dava
De amorosa paixão, mas não te amava:
Baixo costume, natural fraqueza
He que a fez parecer de amor acceza;
Aquella alma não arde, não se inflama,
A todos corresponde, a ninguem ama.
Bem se vio com Bersálio, e com Laurénio
Seu inconstante, seu voluvel genio:
Té no mais desprezivel dos Pastores
He capaz de empregar seus vis amores,
Nunca soube escolher, tudo lhe agrada,
E inda que astutamente infatuada
Faça crer aos Amantes o contrario,
He já sabido seu caracter vario.
Isto em teu coração gravado fique,
E não queiras, Pastor, maior despique:
Se atégora calei quanto te digo,
Foi por não te affligir, prezado Amigo.
Pouco importa perder quem nada valle.
Contente-te, que toda a Aldêa falle
Contra a sua imprudente aleivosia,
Que, se pensasse bem no que o fazia,
Jámais o falso Monstro, que te deixa,
Fechára a tudo os olhos como feixa.
Deveria lembrar-se a fementida
De que a sua affeição foi conhecida,
De que inda em tuas mãos tens os penhores
De seus furtivos, tacitos favores,
Para não te obrigar com tal injúria
A que dos zelos a violenta furia
Despedaçasse hum véo mysterioso,
Hum véo tão necessario como honroso.
Mas verás se mais hora menos hora
Não he punida a infiel Pastora:
Doiradas esperanças lisongeiras
Nutrem-lhe idéas vãs, e interesseiras;
Mas Inálio he como ella ambicioso,
E só deseja hum Hymenêo lucroso,
Que lhe farte a cubiça, os bens lhe augmente:
Elle proprio mo disse, elle não mente,
Que a sua natural simplicidade
Não póde mascarar a sã verdade.
Eia, pois, cesse o pranto, enxuga o rosto,
Adora a Providencia em teu desgosto,
Não delires, Pastor, não desesperes,
Que és feliz em saber quem são Mulheres.

+ELMANO.+

Sim, meu amado, meu leal Francino,
Eu dou mil graças ao Poder Divino
Por me livrar do engano em que vivia,
Eu lutarei c'o a terna sympathia,
Que me fez adorar huma inconstante,
Aos falsos Crocodilos semelhante.
Embora logre Inálio os seus agrados
Fingidos, mentirosos, estudados.
O sórdido interesse he quem a inspira:
Se da Fortuna o meu Rival sentíra
A triste, perniciosa variedade,
Se a violencia de horrivel Tempestade
Lhe derribasse as férteis Oliveiras,
Se o fogo lhe engolisse as Sementeiras,
Se a Chêa lhe afogasse os nedios Gados,
Verias em desdens, e em desagrados
Mudar-se logo o amor, que finge a astuta,
Que de negra cubiça a voz escuta:
Tu a verias outra vez comigo
As chammas assoprar do affecto antigo,
Mendigando razões para applacar-me,
Para me convencer, para enganar-me.
Mas ah paixão! Teu ímpeto reprime,
E busque-se vingança igual ao crime.
Ritália bella, encanto dos Pastores,
Merece meus suspiros, meus amores:
Com ella fui mil vezes desatento,
Negando-lhe o devido acatamento
Por cumprir o preceito rigoroso
De Urselina infiel, que no enganoso,
No detestavel peito encerra, e nutre
Da venenosa Inveja o feio Abutre,
Porque a meiga Ritália he mais do que ella
Branda, risonha, delicada, e bella
Quanto he mais agradavel, mais formosa
Que as outras flores a punícea rosa.
Ritália desde agora o lindo objecto
Será do meu fiel, constante affecto:
Arrebatado em extasis de gosto,
Louvores de seus olhos, de seu rosto
Farei voar nas azas da ternura,
E assim me vingarei d'huma perjura.
Ella, por timbre meu, o escute, o saiba,
E o Coração no peito lhe não caiba
De inveja, de furor: eu, entretanto,
Troque em placido riso o triste pranto,
E a fria indifferença, com que intento
Recompensar-lhe o torpe fingimento,
Até tão alto gráo nesta alma creça,
Que eu veja a desleal, e a não conheça.

+FIM.+