Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:
—Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave.
Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto.
Era a Maria do Rosario.
—Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação.
—Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha apagar as luzes.
E entrou effectivamente para a sala.
Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava disposta a confiar-me cegamente ao destino.
Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha, precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha, que tão desinteressadamente se dedicara a mim. Só d’ella me podia valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era indispensavel para a nossa ultima entrevista.
Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D. Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração, mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem, queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe.