—Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos, quando a pilhava a espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem...

—Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da oração principal.

—Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora, que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando, não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle sempre viu a alma do pae...

—Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente.

—Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada.

—Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...

—Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito, e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D. Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos, ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê enganado nas horas.»—«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e fazem-lhe alguma.

Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão, a que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo, relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante, pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico? Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali, saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D. Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos?

Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro, não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida uma longa noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar:

.... Mas é vida
Esse viver que se alimenta em lagrimas?