—Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas não sabe que mesmo agora, ha um instante apenas, votei a outro homem um amor immenso e eterno? Não sabe que a minha alma voou para bem longe d’aqui, nos labios d’esse homem que m’a colheu n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera, indigna de perdão, porque me ufano do meu crime?

Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar com violencia o peito de Claudio. Lagrimas como punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me pedir que não continuasse, e esteve um instante sem poder fallar.

—Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha tia de que se havia de realisar esta entrevista, tive a fraqueza de os vir espiar. A inquietação e o desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me ensejo de assistir a uma scena que me fez soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso. Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para o seu espirito, a nobreza do seu caracter, de que tão indigno me tenho mostrado. Porque, devo confessar-lh’o, amo-a com um amor, bem que menos poetico, pelo menos tão grande ou maior do que a paixão, que Alberto lhe consagrou.

—Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa ironia.

—Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as lagrimas. Esmague-me com o peso do seu odio, mas ouça-me: Educado severamente no seio d’uma familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder no mais recondito do peito os meus sentimentos, porque, se os manifestava, ia excitar tempestades, que me obrigavam a retratar-me de novo. Todos me dominavam; meus paes, e meus tios. Consideravam-me como uma creança, cujos maus instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações para um mundo mais elevado eram castigadas como crime. Depois da morte de meus paes, minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos annos, continuou a exercer sobre mim um dominio indisputado. Só uma vez me rebellei: foi quando se tratou do meu casamento. O amor que me inspirara, foi mais poderoso do que o habito. Casei contra vontade d’ella. Vingou-se cruelmente. Preciso de lhe contar as insinuações, as calumnias, com que D. Antonia tentou semear a sizania entre nós ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa historia dos seus e dos meus tormentos. A timidez selvagem da minha indole impedia-me de provocar uma explicação, que podia pôr termo a este penoso estado. A desconfiança augmentava a minha reserva; a sua indifferença excitava-a ainda mais. Foi-se envenenando a ferida com as apparencias, cada vez mais illusorias. Suppuz que um outro amor lhe vendava os olhos, que não viam sob a minha frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha dôr, e principalmente o meu desalento. Sentia-me culpado, não podia criminar a pomba, a quem estramalham o ninho, e que vôa tonta pelos ares e tonta vae poisar n’um ramo de arvore estranha. Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se apoderara de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados, pensava eu, ou resistem ao sentimento, que se lhes está apossando dos corações?» Ora pensava que o despeito e o desgosto a teriam levado a esse estado, ora acreditava que era esse um amor antigo que habilmente me disfarçara. Taes suspeitas alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a indifferença evidente, com que me aceitara por marido.

—E não suspeitava, tornei amargamente, que essa indifferença, não era mais do que a despreoccupação da creança, que ainda não sentiu o amor, e cuja alma immaculada é como livro branco, prompto a receber as primeiras estrophes, que lhe queiram traçar nas folhas! Sempre a supposição mais injuriosa!

—Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz entreluziu-me vagamente, como clarão d’aurora por entre as sombras da noite. Pensei no encanto que teria para mim esse amor, que fosse brotando a pouco e pouco entre as doçuras da intimidade, cada vez mais estreita; mas as insinuações de D. Antonia mataram-me o devaneio, e na constrangida ligação que tivemos, não encontrei nunca animação para a empreza. Que funestas consequencias teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os nossos dois corações, que talvez voassem um para o outro, assim se conservaram isolados, e hoje...

Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto inundado de lagrimas. Commoveu-me a dôr d’esse homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel generosidade do seu procedimento.

—Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe as mãos e apertando-lh’as brandamente; a ferida do meu coração é muito profunda, e receio que nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar com o espectaculo dos meus tormentos. Viu que tive força bastante para lhe salvar a honra, tel-a-hei para lhe não perturbar a tranquillidade. Não lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto d’irmã, esse já m’o conquistou. Bem sei que é estranho este modo de fallar d’uma mulher a seu marido, mas á sua franqueza com igual franqueza correspondo. Se o destino não consentiu que se formasse entre nós uma ligação mais doce, vinguemo-nos dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança. Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora, que nos envenenou a existencia, e o nosso sanctuario, onde habitarão a paz e a amisade, não será ao menos profanado pela intriga e pela calumnia. Acceita esta alliança?

—Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal agora, e não sou tão insano que faça voar mais alto a minha ambição. Está feito o mal, e se não tem remedio, tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais doce podia eu desejar do que a sua amisade, e uma esperança... louca talvez, mas que lhe imploro que me deixe!