E fugiu. Eu caí prostrada e soluçando aos pés da estatua. Quando levantei a fronte, vi deante de mim um vulto, cujo rosto estava mais pallido do que o marmore, que eu regara com as minhas lagrimas.
Era Claudio.
XXII
Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria immenso, não conseguiu tirar-me da lethargia, em que me prostrara a terrivel scena, que houvera entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido no rosto de meu marido.
Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza, mas nos seus olhos, d’onde desapparecera a vaga desconfiança que era a sua expressão habitual, transluzia não sei que meiga bondade, e que suavissima ternura.
Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com voz cheia de lagrimas:
—Quando me perdoará, Margarida?
Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei:
—Perdoar-lhe eu?
—Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas quando souber quanto eu soffri, quando souber que diversos e innumeros golpes me alancearam por tão longo espaço! quando comprehender bem o meu caracter fraco, incerto, impellido por cada sopro extranho, cedendo machinalmente a qualquer influencia, talvez me desprese, mas absolva. E depois, muito depois, é possivel que um raio de affecto venha doirar a compaixão, que eu lhe inspire.