E arrastava-me com impeto febril. E eu dizia-lhe:
—Alberto, não queiras macular o nosso tão casto sonho. Estes devaneios, que fórmas, bastantes vezes me acariciaram, mas repelli-os sempre, mas quero ainda hoje repelli-os. Amo-te, amo-te loucamente, hei de amar-te sempre: leva esta confissão minha para consolo dos teus dias attribulados. Mas a flor secca, Alberto, a flor que guardo no meu seio é o symbolo do nosso amor. Não tentemos dar-lhe novo perfume, e viço novo, á custa de um sacrilegio. O tufão da desgraça merecida dispersar-lhe-hia as folhas, e que dôr, que immensa dôr não seria-a nossa! Amo-te, Alberto, mas deixa-me fugir-te.
—Não! não! tornava elle, basta de vãs loucuras, de sacrificios vãos! És minha, só minha. Dá-me o amor sobre ti direitos inalienaveis. Se o remorso nos saltear, morreremos, mas morreremos juntos. Que importa? Morreremos enlaçados, na flôr dos annos. É esse o destino d’aquelles a quem ama a céu.
—Alberto! Alberto, o teu amor é o louco amor inspirado pelo paganismo, e não o que se purifica nas aras de Jesus. O amor, que triumpha sobre as ruinas do dever e da honra, não póde ser abençoado por Deus.
—Deus! se existe, não póde separar os que se amam.
—E o dever, e a amisade que te ligam a Claudio, e a consciencia? Oh! se cedesses a esta impia tentação, o teu anjo da guarda velaria com as mãos o rosto indignado.
—O meu anjo da guarda, Margarida! O meu anjo da guarda és tu!
—Não, Alberto, é o espirito de tua mãe!
Elle parou, e soltando as mãos que me cingiam o corpo, levou-as aos olhos, d’onde lhe irrompia o pranto; depois, voltando a mim, e tomando-me a cabeça nas mãos, beijou-me os labios, dizendo-me:
—E tu és o anjo do sacrificio. Adeus. Adeus para sempre!