Lancei a cabeça para traz, para fugir á magnetica seducção do olhar de Alberto. Soltou-se-me então uma trança, que a brisa trouxe logo a beijar-me o collo, como essas boucles folles em que os francezes fallam.
—Mas o que quer? o que exige de mim? disse eu com voz tremula. Oh! Alberto, porque se não ausentou já?
—Nada quero nada, senão que se deixe estar assim, formosa incarnação do meu sonho mais bello! Oh! se um esculptor grego a visse, tomal-a-hia pela deusa da caça, nas horas em que desce ao seio dos bosques a procurar Endymião. Ha na sua attitude um mixto indizivel de languidez e de pudor, um não sei que de casta voluptuosidade, que lhe namoraria os olhos, como a mim m’os namora, captivando-me o espirito. És linda, Margarida!
—Alberto! interrompi eu, escondendo a fronte ruborisada nas mãos trementes.
Elle cingiu-me com um braço, e puxando-me para si, e obrigando-me ao mesmo tempo com dôce violencia a reclinar o rosto, de fórma que a lua m’o illuminava em cheio, continuou:
—És linda! és linda! quero gravar bem no coração a tua imagem, as linhas do teu semblante, a luz do teu olhar! Quereria até poder captivar e reter na urna do meu peito esse perfume inebriante e impalpavel, que se exhala dos teus cabellos! E vou perder-te para sempre... para sempre... não ver-te mais, senão em sonhos. E hei de assim abandonar a ventura, quando a tenho nos meus braços, hei de eu mesmo precipitar-me das alturas do céu nas profundesas do inferno? Que tortura, não é?
—E a minha, Alberto?
—A tua ha de ser o desgosto que sentimos ao ver desfazer-se o devaneio de um instante, o desgosto da creança, quando desapparece o globo de agua de sabão, todo iriado e matisado de brilhantes côres pelos raios de sol, globo que um sopro creou e um sopro mata. Mas eu!... Este sonho formava parte integrante da minha existencia. Ainda que o julgasse irrealisavel, sempre uma vaga esperança me vinha segredar ao ouvido ineffaveis consolações. Mas agora, filha, agora nem isso me é permittido! morreu para sempre, morreu o pobre sonho, o meu constante companheiro, o meigo irmão da minha alma!
E apertava-me convulso ao peito, e embebia nos meus os seus olhos desvairados. Afastava-me os cabellos da fronte com os dedos tremulos, e o seu bafo acariciava-me os labios, dôce e casto como o beijo de um anjo.
—E podia comtudo ser feliz, Margarida! Se calcasse aos pés as leis do mundo e as da honra, se te pedisse que fugissemos d’aqui para um recanto ignorado do mundo, onde houvesse luar, canticos e aromas! Para a Italia, para Napoles, á beira d’esse formoso golpho, por baixo d’esse céu azul, n’esse solo ardente, requeimado pela lava do Vesuvio, como o meu peito pela fervente lava d’este amor. Alli de todos nos esqueceriamos; alli podiamos prolongar infinitamente estes rapidos instantes. Margarida! tu não podes viver n’esta atmosphera de gelo, n’esta casa maldita; o teu destino é o meu, são eguaes os nossos fados. Vem, vem comigo, arrojemo-nos cégamente para este pelago de paixões, unico elemento onde póde viver o nosso espirito férvido. Vem, devoremos em Napoles em alguns annos uma existencia de seculos, até que morrâmos juntos sobre o tumulo do poeta de Dido, ou na praia sonora, onde nasceu o vate de Armida.