—Sim, como todos os sonhos, que descem das regiões da phantasia para o mundo da realidade. Dizem as lendas allemãs que os espiritos do ar e das aguas podem, pela magia do amor, tomar humana forma e alma tambem humana, mas qualquer desgosto os fina, e perdem então de todo a immortalidade. Quer-me parecer que os sonhos são como os sylphos e as ondinas.

—Louco de quem lhes magôa as azas candidas com os attritos da vida!

—Bem louco!... Que irresistivel tentação, que absurdo escrupulo me impelliu a revelar-lhe n’aquella noite fatal a historia dos meus amores! Soltei as avesinhas captivas, julgando que as poderia fazer voltar ao ninho...

—E ellas foram despertar com os seus cantos as irmãs adormecidas na minha alma. Era natural, bem vê.

—Como virem os gelos, e matarem-nas. Embora, continuou Alberto um tanto exaltado, gosei um instante de suprema ventura. Oh! antes de nos separarmos para sempre, diga, Margarida, diga-me que esse momento, em que se vae absorver e resumir todo o meu passado, ha de brilhar tambem como um ponto luminoso na sua vida.

—Sim, digo, tornei eu palpitante de commoção, e não me pejo de o dizer, porque vou expiar longamente esse prazer tão rapido. Entrevi de relance as doçuras de um vedado paraiso. Bebi com delicia criminosa o feiticeiro philtro das suas palavras. Não tardaram as amarguras. Estado tão inebriante era como esse mundo de crystal, que a phantasia de não sei que romancista povoou de ignotos encantamentos, de esplendidos prodigios; mas um bafo annuviava o ridente quadro, qualquer attrito o partia. Vivemos instantes no crystal, Alberto; o nosso mundo despedaçou-se, e os fragmentos ahi jazem dispersos. Mas crêa: sempre que os espinhos da realidade me ferirem em demasia, hei de volver os olhos enlevados para a região das fadas, onde enlaçados poisámos.

—Oh! não murmure ao meu ouvido, tornou Alberto, essas magicas palavras! Quer que nos separemos, e está entrançando de ouro e seda o laço, que me ha de reter captivo? A melodia da sua voz é canto de sereia, que me arrasta para o abysmo. Sinto que a minha alma se prende n’essa ineffavel seducção. Separarmo-nos! separarmo-nos agora, repetia elle exaltado, bem vê que é impossivel! Essa palavra destôa dos murmurios amorosos d’este jardim, das meigas notas da sua voz. Não a profira, não me quebre o encanto, deixe-me viver no crystal, como dizia, no crystal onde sinto repercutir-se em eccos deliciosos cada uma das estrophes do meu encantador poema. Não, não, não posso.

—Alberto, exclamei eu, o que intenta fazer? Lembre-se do que me prometteu, lembre-se das desgraças, de que póde ser causa este infausto amor.

—Sim, Margarida, respondeu elle apertando-me convulso as mãos, lembro-me de tudo, e tudo cumprirei. Mas hoje é a ultima noite que me resta para te ver. Lembra-te que vou, navegador infeliz, vaguear de novo pelo oceano sombrio da existencia, sósinho, sem uma esperança, sem uma estrella no céu tenebroso, ludibrio das vagas e das tempestades. E quando o vendaval agudo me açoitar alta noite, quando não bruxulear para mim no horisonte outro fanal que não seja a triste lampada do tumulo, não queres que eu conserve ao menos uma lembrança do radiante porto, da afortunada ilha onde pude repoisar por instantes a fronte queimada pelo sopro das procellas? Não queres que se me aclarem um momento as sombras, e que entre os fulgores da aurora me surja o teu vulto angelico, meigo e saudoso como na hora em que para sempre nos apartámos?

E a lua, alta no céu, illuminava-lhe o rosto pallido, e incendia-lhe vivissimos lampejos nos olhos marejados de lagrimas. A aragem meneava a copa do pecegueiro, e desprendia-lhe as flores, que caíam em torno de nós em chuva de perfumes. Esse murmurio vago das noites de estio expirava ao nosso ouvido em voluptuosa melodia.