Formava o buxo uma espessa parede, que nos abrigava do lado de casa; corria-lhe fronteiro o muro do jardim, mas a porta ficava-nos distante. Um pecegueiro, ainda em flor, estendia por cima de nós a copa como um docel perfumado. Uma estatua pagã, meio escondida no buxo, espreitava-nos maliciosamente da sua verde alcova.

—Senhor Alberto Mascarenhas, disse-lhe eu com voz profundamente commovida, poz-nos o acaso n’uma situação falsissima. N’um momento de exaltação passageira trocámos palavras fataes, que ainda hoje me soam aos ouvidos como um remorso. Justificámos a calumnia, demos rasão aos calumniadores. Esse crime só se resgata com a separação. É o allivio para os nossos espiritos, a tranquilidade para as nossas consciencias. Não podemos viver assim com a recordação d’essa tarde a interpor-se constantemente a nós ambos, a pungir-nos sempre como espinho de rosa, que nasceu amaldiçoada. Chamei-o aqui para implorar da sua honra, do seu cavalheirismo, da sua amisade, do seu amor emfim, se me é permittido proferir tal palavra, a esmola de um pouco de socego. Parta, rogo-lh’o, ausente-se d’esta casa, d’este sitio, rompa completamente as suas relações com a minha familia; só assim poderei recuperar a paz, por que almejo tanto, que a acceito, ainda que seja o repouso do tumulo, ou a atonia do desespero.

—Minha senhora, respondeu Alberto com mal fingida firmesa, obedeço a esta ordem de vossa excellencia, como a todas obedeceria. E demais vejo, percebo tambem, que é intoleravel a nossa situação. Amigo de seu marido, estou representando um papel em que a minha lealdade soffre. Não sei se esta consideração bastaria para me arrancar d’aqui; as leis da honra ás vezes são frageis diques contra as torrentes de alguns affectos. Mas não devo pensar em mim, devo pensar no anjo puro, cuja etherea serenidade perturbei, no anjo, em cujo céu immaculado tive a audacia de fazer reboar um echo das paixões vis da terra. Possa o meu sacrificio restituir-lhe o repouso.

Calou-se um instante, e depois, emquanto eu, sem forças para lhe responder, e mal podendo suster-me em pé, me encostava ao pedestal da estatua, continuou com voz triste, ainda que serena:

—Adeus, Margarida.

E estendeu-me a mão, que eu apertei.

—Adeus, Alberto, disse com egual simplicidade e tristeza.

E ficamos assim, com as mãos enlaçadas, e os olhos de um cravados nos olhos do outro. A brisa sussurrava no arvoredo, e o primeiro raio da lua nascente coava-se a furto por entre os ramos do pecegueiro.

—Que sonho tão breve, Margarida! murmurou elle.

—Como todos os sonhos, Alberto! respondi eu.