Abri a porta do jardim, e saí. Ainda não campeava no horisonte a lua, mas aproximava-se a hora em que havia de surgir o meigo astro. A folhagem das arvores meneava-se brandamente ao sopro suave da brisa, e por entre a ramaria scintillavam as estrellas.
Atravessei ligeiramente a rua principal do jardim, dirigindo-me á porta que deitava para a estrada. Quando cheguei a uma espessa moita de buxo não tosquiado, que se erguia a grande altura, ouvi uma voz que murmurava muito de manso:
—Margarida!
Voltei-me, e vi Alberto.
Parei, e comprimi com a mão o violento arfar do peito. Alberto pegou-me na outra mão, e levou-a respeitosamente aos labios.
—O que pensou de mim, senhor Mascarenhas, disse-lhe eu, ao receber o estranho recado que lhe enviei?
—Pensei que vossa excellencia tinha que me dar uma ordem, que eu tinha a ventura de poder executar um mandado seu, e vim.
—Disposto a obedecer-me?
—Em tudo.
Calei-me embaraçada; não sabia como havia de dar o primeiro passo n’esse terreno escorregadio. Tinha os olhos baixos, mas como que sentia o olhar de Alberto fito no meu rosto com inexprimivel anciedade. As nossas respirações oppressas confundiam-se n’um murmurio, que se casava com o sussurrar da brisa languida nas folhas do arvoredo.