—Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz baixa.

Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos vagarosamente para uma das extremidades da rua, como se andassemos saboreando placidamente a frescura da noite.

Tinhamos dado apenas alguns passos, quando subito, e, como se fosse a um signal convencionado, appareceram luzes por todas as bandas, e os vultos de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de Maria do Rozario surgiram magestosamente, trazendo cada um d’esses quatro personagens um candieiro ou um castiçal na mão.

As luzes, que tinham resguardado por baixo das capas ou dos chales, inundaram de fulgor a rua escassamente allumiada pelo luar, e, batendo em cheio na estatua, cingiram-na com esplendido manto.

Um passarinho, adormecido na espessura, despertou saudando esta ficticia aurora. Eu e Claudio parámos tranquillamente relanceando os olhos com espanto comico para os quatro actores, que tinham entrado em scena, e que nos miravam estupefactos.

—O que é isto? perguntou Claudio desfechando uma sonora gargalhada. Temos scena final de melodrama? Abre-se a porta do fundo, e apparece o tyranno, rodeado de soldados e de luzes?

—Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo, porque vejo aqui a senhora condessa e a senhora D. Carolina, que a estas horas julgava que dormiam muito socegadas nas suas camas!

Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos pasmados, ora umas para outras, ora para nós. Era tão comico o seu desapontamento que eu desatei a rir.

A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado, porque não o quiz perder de todo, e ainda principiou:

—Minha sobrinha... aqui... a estas horas...