—A passear comigo, acudio Claudio, então que tem? A tia parece-me somnambula!

—E estão sós? exclamou levianamente a condessa.

—Pois com quem haviamos de estar? continuou elle. Vossa excellencia esperava aqui alguem, ou alguem lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada, estamos sós, e devemos confessar que não contavamos ser surprehendidos. Andavamo-nos deliciando com as frescas emanações de uma noite de estio. N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e reconhece-se a verdade do que diz um poeta francez:

On ne dort qu’ à demi d’un sommeil transparent

D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para Claudio; nunca o tinhamos visto tão expansivo. Parecia que o jubilo, innundando-lhe o coração, lhe trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor proprio não podia deixar de ser affagado um pouco pela idéa de que só uma levissima esperança pudera transformar o caracter de meu marido.

Comtudo a posição estava sendo ridicula para os quatro conspiradores. Era preciso sairem d’ella a todo o custo. Encarregou-se de preparar uma retirada airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou uma historia de ladrões, que as tinham assustado ao irem para suas casas, motivo por que tinham voltado para traz: explicou a sua visita ao jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros a fim de se certificarem que não havia homens escondidos n’algum canto.

Ouvi esta historia com um sorriso nos labios, Claudio com ironica attenção, interrompendo-a a cada passo com exclamações de zombeteiro espanto.

Quando ella acabou, não pude deixar de dizer, sorrindo:

—São poetas os bandidos! Escolhem noites de luar, claras e transparentes, para fazerem as suas excursões! Estou que, antes de nos roubarem, não haviam deixar de nos dar uma serenata.

—É possivel, respondeu ella amargamente, em todo o caso não seria eu quem a ouvisse.