—Com muita pena sua, não é verdade, senhora D. Carolina?

Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo em voz baixa entre Claudio e D. Antonia. Só pude perceber as ultimas palavras:

—Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe ella.

—Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou sendo agora tolo... e teimoso!

D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos, e preparou-se para ter um ataque de nervos. Mas lembrou-se que estava o chão do jardim humido com o orvalho que principiava a cair, e houve por bem adial-o para outra occasião.

Todas quatro se retiraram para casa, justificando um proverbio portuguez muito conhecido, que diz respeito aos tosquiadores de lã.

Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos, indo eu encostada ao braço de meu marido. A lua brilhava serena e limpida no firmamento azul, e a aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas das rosas, colhia perfumes, que pagava com murmurios.


Passado um mez, partiamos, eu e meu marido, para uma viagem na Europa. Era este o unico meio de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de fugirmos ás pungentes recordações que despertava no nosso espirito cada sitio onde tinhamos passado uma existencia attribulada.

A imagem pensativa de Alberto não me deixou um instante só, durante os dois primeiros annos da nossa excursão. Visitou comigo Pompeia, a resurgida cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a afortunada; a historica Roma; a artistica Florença; a aristocratica Genova; a melancholica Veneza; Milão, berço da moderna poesia italiana; Turin, berço da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a Allemanha. Ahi a imagem de Alberto interpoz-se menos vezes a mim e ás paizagens grandiosas, aos castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno. Muitas vezes, meu marido, quando a conversação entre nós ambos se tornava mais expansiva, me perguntava o que era feito da flor secca. Mas eu descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa. Salteava-o então dolorosa melancholia, e estava longas horas sem proferir palavra.