Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.

—Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.

Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, e disse-lhe:

—Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á minha affeição.

—Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.

Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.

Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado duas horas.

Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam sem brilho.

Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A tal convite nunca eu soubera resistir.

Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu par na polka.