O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus olhos.
—Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade.
—Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.
Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia n’uma das suas horas de mau humor.
Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza.
Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos giros que tanto me enlevavam.
Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile.
O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual gravidade.
—Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se, quando íamos descendo as escadas do palacio.
—Pareceu-me bem, respondi eu, porque?