Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente. Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil? Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito, enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do mundo do ideal.

Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica, ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile. Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas; via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas formosas visões.

Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle, é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real. O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens? Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma huri da Circassia?

Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido na minha alma, como altar atheniense, ao deus desconhecido. Os suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra que os exhalasse.

Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas, outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas, com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam mutuamente.

Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.

Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o Ah distrahido com que eu a acolhera?

III

Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha. Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um gesto, de um segundo?

Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas a meus paes.