D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas».

Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de larangeira, emblemas nupciaes.

Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres, que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta, os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos suspensos nos copos esperavam a metamorphose.

A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas desmaiadas no horisonte.

Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa, corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal! Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh! fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és boa!»

Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente, e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista, e...

E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento, e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e luva branca!

Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!

Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me devia conduzir á igreja.

D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas.