Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar as brancas velas do baixel do meu destino.
Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida, a formosa e radiante constellação dos meus devaneios!
IV
Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes.
Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da peregrinação, que eu ia principiar.
Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, a que respeitava era sua tia.
O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando sacudil-o.
Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos, que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa as lagrimas de despeito.
A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente, que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha logo um madrigal, que, pela fórma moyen-âge, revelava um adorador dos bons tempos dos trovadores das Ellas, revelação que restabelecia a verdadeira data da sua certidão de baptismo.
Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide, que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.