Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor!
E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e deslisaram-me vagarosamente pelas faces.
N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva, que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita.
N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem.
—Claudio! amice! onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico, porque, se t’o dou na realidade, encharco-te.
—Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de braços abertos.
—Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade italiana está matando o lazzarone, a chuva mais dia menos dia dá cabo do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas a bordo de um steamer. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande marquez não chovia, meu amigo.
—Alberto, deixa-me...
—Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes, só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem, Claudio!
—Consente, Alberto, que...