Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou achar-se fatigado, e retirou-se. Ficámos sós, eu e D. Antonia.

De bom grado me teria tambem retirado; mas o somno esquivava-se-me ás palpebras, que em vão o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, pulsava-me nas veias a febre da arte. Decididamente não podia dormir; levantei-me e approximei-me da janella.

O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira a lua; o céo estava de uma limpidez magnifica, as poças da agua brilhavam como diamantes enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça escandescente n’essa athmosphera gelada, e abri a janella.

—Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, acudiu logo D. Antonia. Demais a mais é escusado! olhe que já o não vê.

—Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada.

—Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui.

—Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber ainda.

—Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor Alberto Mascarenhas.

Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; mas, lembrando-me da discussão que ia provocar, encolhi os hombros, fechei a janella e fui me sentar ao pé da mesa.

Seguiu-se um silencio.