—Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a Lucia e a Norma são as duas chaves do Paraizo.

—E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.

—Oh! esse é o porteiro do inferno.

Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:

—Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a darem eternamente o do peito. Pois onde queria que eu collocasse o author do Roberto do Diabo? No céo de certo que não. Meyerbeer é o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do Roberto é a pavorosa traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo. São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da abertura do Propheta! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos!

N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e saiu.

VI

Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre um peso no peito. Imaginem Sisypho, a victima infeliz do inferno mythologico, podendo ver de relance uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado n’esse delicioso panorama, sentindo de subito rolar pela escarpa da montanha, e desabar-lhe em cima o rochedo do supplicio!

Tal era a minha situação.

Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, constrangido, torturado, voara em extasi para a região luminosa dos meus sonhos, engolphara-se nos seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as harmonias desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me de novo, e as grades da minha gaiola appareciam-me em toda a sua negra hediondez.