Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:
—Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal, tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de melodia a deliciosa serenata do Marino Faliero de Donizetti. Como por mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore branco. Avultou-me ao longe o Bucentauro, com o seu magestoso cortejo de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da chrysalida, como a Venus da espuma!
—O que! ouviu em Veneza a serenata do Marino Faliero? acudi eu com jubilo infantil.
E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia.
Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado, como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza, reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.
Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava rijo, fazendo gemer os postigos.
Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias, Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido havia muito com a aza branca magoada!
Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que entregue a um delicioso extasi.
—Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias! são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes, nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual, pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia!
—Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido?