—Qual D. Bazilio?
—Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado depois por outro chamado Rossini!
—Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito.
—Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a agua de Juvencio.
—Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido.
Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente, e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha sido mystificada, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.
—Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu marido, para dizer alguma coisa.
—Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco? Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes principalmente. Os lazzaroni andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia, que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas?
—Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas, desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a olvidaram de certo os eccos da strada Balbi. Levem-me á Italia, e eu atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem bersaglieri? não sei, não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte, não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor, que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte!
—Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo, cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes, passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles, não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso, como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de Horacio e a Delia de Tibullo.