Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo do coupé. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco a minha imaginação não se poude conter, engolphou-se na região dos devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos nossos visinhos do campo.
Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas. Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento, com o seu instantaneo colorido.
Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa.
A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia.
Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.
Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz de D. Antonia.
—De que se ri? perguntou logo.
Como que acordei sobresaltada.
—De nada, retruquei.
—De nada? Só a pessoas que não teem todo o juizo, acontece semelhante coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por entre os dentes.