Encolhi os hombros.

—Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito sério. Provavelmente nem sabe o que foi.

—Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem.

—Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira.

Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto.

Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse para bem longe d’aquella atmosphera turvada.

Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras.

O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia, mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos.

Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno, e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente, como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem vivos, bem claros os vultos que imaginava.

Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente, representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos, que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.