Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante, resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo.
Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo. Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a cabeça dizendo:
—Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras.
Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes.
Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua desabou em cima de nós.
—Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que noite que vamos ter!
—Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.
—Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao jumento para lhe apressar o passo vagaroso.
—E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?
—Agora vamos nós atravessar uma.